Todo paciente com diabetes corre risco de desenvolver retinopatia. O problema é que a doença não dá sinais até estar avançada.
O exame principal para detectar a retinopatia diabética é o mapeamento de retina com dilatação pupilar, também chamado de fundoscopia ou oftalmoscopia indireta. Nele, o oftalmologista instila colírio dilatador no olho e examina diretamente a retina, o nervo óptico e os vasos sanguíneos com equipamento de magnificação. É o método padrão utilizado mundialmente para triagem e diagnóstico inicial da doença.
Mas a fundoscopia não está sozinha. O diagnóstico completo e o estadiamento preciso da retinopatia diabética exigem, na maioria dos casos, a combinação de múltiplos exames complementares, cada um revelando uma camada diferente de informação sobre o estado da retina.
Os principais exames para detectar a retinopatia diabética

1. Mapeamento de Retina com Dilatação Pupilar
O exame mais acessível e amplamente disponível no Brasil, tanto em consultórios particulares quanto em serviços públicos de oftalmologia. A dilatação com colírio (tropicamida ou fenilefrina) permite que o médico visualize toda a extensão da retina, incluindo a periferia, onde as primeiras lesões costumam surgir.
O que o exame identifica:
- Microaneurismas nos capilares retinianos
- Hemorragias em chama de vela ou puntiformes
- Exsudatos duros (depósitos de lipídeos) e moles (áreas de isquemia)
- Neovascularização da retina e do disco óptico
- Alterações no calibre das veias retinianas
A limitação do exame é que depende da experiência do examinador e não gera registro fotográfico permanente sem equipamento adicional. Para acompanhamento longitudinal, a retinografia é preferível.
2. Retinografia (Fotografia de Retina)
A retinografia é a evolução documentada da fundoscopia. O equipamento fotografa a retina em alta resolução, permitindo comparar imagens ao longo do tempo e detectar mudanças sutis que seriam imperceptíveis em uma única consulta.
Os aparelhos modernos de campo amplo (widefield) conseguem capturar até 200 graus da retina em uma única imagem, revelando lesões periféricas que passariam despercebidas no exame clínico convencional. Estudos mostram que a retinografia de campo amplo detecta até 10% mais casos de retinopatia proliferativa em comparação com fotografias de campo padrão de 45 graus.
A retinografia com inteligência artificial já é realidade clínica em vários países e avança no Brasil. Algoritmos treinados em milhões de imagens de retina analisam as fotografias e classificam automaticamente o grau de retinopatia com precisão comparável à de oftalmologistas experientes. Isso permite triagem em larga escala em unidades básicas de saúde, sem necessidade de especialista presente.
3. Tomografia de Coerência Óptica (OCT)
O OCT é o exame mais preciso para avaliar o edema macular diabético, que é a principal causa de perda visual no diabetes. Funciona como uma “ultrassonografia de luz” que gera imagens transversais da retina em resolução micrométrica, permitindo medir a espessura de cada camada retiniana com precisão de microns.
O que o OCT revela que outros exames não conseguem:
- Espessura macular com medida numérica precisa
- Líquido intrarretiniano e sub-retiniano invisível ao exame clínico
- Alterações estruturais das camadas da retina antes de afetar a visão
- Resposta ao tratamento com injeções intravítreas ao longo do tempo
- Integridade da zona elipsoide, marcador de prognóstico visual
O OCT-A (angiografia por tomografia de coerência óptica) é a versão mais avançada do exame. Sem necessidade de injeção de contraste, mapeia o fluxo sanguíneo nos capilares retinianos e identifica áreas de isquemia e neovascularização com resolução sem precedentes. É especialmente útil para detectar retinopatia diabética subclínica, antes mesmo que as lesões apareçam no exame clínico.
4. Angiofluoresceinografia (AFG)
A angiofluoresceinografia é o exame de referência para mapear a circulação retiniana. Um corante fluorescente (fluoresceína sódica) é injetado na veia do braço e fotografias em sequência rápida documentam o trânsito do contraste pelos vasos da retina nos primeiros segundos e minutos após a injeção.
O que a AFG detecta com exclusividade:
- Áreas de não perfusão capilar (isquemia retiniana)
- Vazamento vascular ativo com precisão topográfica
- Neovascularização precoce ainda não visível ao exame clínico
- Extensão real do edema macular
- Microaneurismas ativos em comparação com os inativados
A AFG ainda é insubstituível para decisões cirúrgicas e de laser, pois mapeia exatamente quais áreas tratar. O OCT-A complementa mas não substitui completamente a AFG em casos de doença avançada ou quando se necessita documentar o padrão de vazamento.
5. Ultrassonografia Ocular
Quando as estruturas anteriores do olho estão opacas, como na presença de catarata densa ou hemorragia vítrea, é impossível visualizar a retina pelos exames ópticos convencionais. A ultrassonografia ocular em modo B resolve esse problema ao usar ondas sonoras para gerar imagens da retina mesmo sem transparência do meio.
O exame é fundamental para:
- Detectar descolamento de retina em olhos com vítreo hemorrágico
- Identificar membranas tracionais antes da cirurgia
- Avaliar a extensão da hemorragia vítrea
- Planejar a vitrectomia em casos avançados
Comparativo dos exames por função diagnóstica
| Exame | Principal função | Necessita contraste | Disponibilidade |
| Fundoscopia com dilatação | Triagem inicial | Não | Alta |
| Retinografia | Documentação e triagem | Não | Alta |
| OCT | Edema macular e estrutura | Não | Alta |
| OCT-A | Circulação sem contraste | Não | Média |
| Angiofluoresceinografia | Mapeamento vascular | Sim | Média |
| Ultrassonografia ocular | Meios opacos | Não | Alta |
Qual exame o médico pede primeiro. O protocolo mais utilizado na prática clínica começa com a retinografia bilateral como exame de triagem. Se as imagens forem normais ou mostrarem apenas retinopatia leve, o paciente é monitorado com retinografia periódica. Se houver suspeita de edema macular, o OCT é solicitado imediatamente. Quando se planeja tratamento com laser ou cirurgia, a angiofluoresceinografia é acrescentada para guiar o procedimento.
Em unidades básicas de saúde, o modelo de teleoftalmologia com retinografia e análise remota por especialista tem permitido triagem em escala de pacientes diabéticos sem acesso a oftalmologistas, com encaminhamento seletivo dos casos que realmente necessitam de avaliação presencial especializada.
Com que frequência fazer os exames
A frequência ideal dos exames varia conforme o tipo de diabetes, o tempo de doença e o grau de controle metabólico:
| Situação | Quando iniciar triagem | Frequência recomendada |
| Diabetes tipo 2 ao diagnóstico | Imediatamente | Anual se normal |
| Diabetes tipo 1 | Após 5 anos do diagnóstico | Anual se normal |
| Retinopatia leve identificada | Já em acompanhamento | A cada 6 a 12 meses |
| Retinopatia moderada | Já em acompanhamento | A cada 3 a 6 meses |
| Gravidez com diabetes | No primeiro trimestre | A cada trimestre |
| Antes de cirurgia de catarata | Pré-operatório | Conforme indicação cirúrgica |
Novidades no diagnóstico da retinopatia diabética
A inteligência artificial transformou a triagem da retinopatia em escala global. Sistemas de deep learning aprovados por agências regulatórias analisam fotografias de retina com sensibilidade superior a 90% para detecção de retinopatia diabética moderada ou pior. No Brasil, o tema avança em projetos piloto ligados ao SUS e a redes hospitalares privadas.
O OCT de varrimento de profundidade aumentada permite visualizar a coroide, camada vascular abaixo da retina, identificando alterações coroidianas precoces no diabetes que precedem as lesões retinianas visíveis. Isso abre perspectiva para diagnóstico ainda mais precoce do que o atual padrão.
A pupilometria infravermelha é uma tecnologia emergente que avalia a função das células ganglionares da retina por meio da resposta pupilar à luz, sem necessidade de dilatação ou equipamento invasivo. Estudos recentes mostram que alterações na resposta pupilar aparecem antes das primeiras lesões vasculares visíveis na retinografia, o que pode antecipar o diagnóstico em anos.
A análise da camada de fibras nervosas da retina pelo OCT tem ganhado importância como marcador de neuropatia diabética retiniana, uma dimensão da doença distinta da retinopatia vascular clássica. Pacientes com diabetes apresentam perda de espessura dessa camada mesmo sem lesões vasculares, indicando que o dano neuronal começa antes do vascular.
Sinais que indicam necessidade de exame imediato
Mesmo que a última consulta tenha sido recente, procure avaliação oftalmológica sem esperar a data agendada diante de:
- Visão turva de início súbito em um ou ambos os olhos
- Aparecimento repentino de moscas volantes em grande quantidade
- Flashes ou relâmpagos luminosos no campo visual
- Sombra ou cortina cobrindo parte do campo visual
- Perda de visão central ao tentar ler ou reconhecer rostos
Esses sintomas podem indicar hemorragia vítrea ou descolamento de retina, que exigem avaliação de urgência. Em olhos com retinopatia diabética avançada, o tempo entre o início dos sintomas e o atendimento especializado é determinante para o prognóstico visual.
Perguntas frequentes sobre os exames de retinopatia diabética
O exame de retina dói? Não. A dilatação pupilar pode causar sensibilidade à luz por algumas horas, mas o exame em si é indolor. A angiofluoresceinografia envolve injeção venosa e pode causar leve náusea transitória em alguns pacientes.
Posso dirigir após o exame de mapeamento de retina? Não é recomendado nas horas seguintes à dilatação, pois a visão de perto fica embaçada e a sensibilidade à luz aumenta. Leve um acompanhante ou aguarde o efeito do colírio passar.
O exame de sangue detecta a retinopatia diabética? Não. A hemoglobina glicada e os demais exames laboratoriais avaliam o controle do diabetes, mas não identificam lesões na retina. Apenas o exame oftalmológico direto ou por imagem detecta a retinopatia.
Médico clínico geral pode fazer o mapeamento de retina? O exame deve ser realizado ou supervisionado por oftalmologista. Em programas de triagem com retinografia e teleoftalmologia, técnicos treinados capturam as imagens e oftalmologistas analisam remotamente.
Considerações finais
Detectar a retinopatia diabética precocemente é uma das intervenções médicas com melhor custo-benefício na prevenção da cegueira. O exame é simples, rápido e, na maioria dos casos, disponível tanto na rede pública quanto na privada.
Todo paciente com diagnóstico de diabetes, independentemente de ter sintomas visuais, precisa de avaliação oftalmológica regular. A visão que se preserva hoje é o resultado do exame que se faz agora.
